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A minha namorada apanhou o bouquet

Um local de paz e reflexão, mesmo tendo ela apanhado o bouquet.

A minha namorada apanhou o bouquet

Um local de paz e reflexão, mesmo tendo ela apanhado o bouquet.

Qua | 19.06.19

Quer lugar na esplanada?

P.A

No outro dia estava numa esplanada com mais pessoas e dei por mim com uma necessidade súbita de consultar o meu telemóvel. Quando olhei em volta, todos padeciam da mesma fome. O silêncio reinava, pautado pelos gestos de maestro que rapidamente aprendemos a fazer sem grande dificuldade no nosso smartphone.

 

Não era uma esplanada, era um velório social. Estávamos juntos, mas cada um na nossa vida.

 

Isto fez me pensar no antigamente, quando as esplanadas serviam como uma espécie de revista "Maria" de aldeia em que as pessoas se sentavam, pediam um copo de água e rapidamente ouviam as fofocas da terra. Era saudável, barato e ajudava a fomentar as línguas mais afiadas bem como a limpar a cera dos ouvidos mais cuscos.

 

O olhar ficava preso no horizonte, a perna era traçada sempre da mesma forma e a orelha apontava à mesa mais próxima. E caso estivéssemos acompanhados, éramos nós os primeiros a dar corda à língua.

 

E assim se era porteira em part-time no antigamente.

 

Hoje em dia, se o sinal de wifi for pior lá fora, prefere-se ficar lá dentro. O Instagram passou ser a mesa ao sol da cusquice e o Facebook o seu copo de água.

 

Antigamente, dependendo do nosso mood, já se sabia onde se sentar, tínhamos a mesa 2 da senhora Albertina que falava sempre da filha do chefe, a mesa 4 do João que fala mal da sogra ou a mesa 5 com aquela rapariga gira que ia sempre sozinha e "é hoje que lá me vou sentar e meter com ela".

 

Hoje em dia basta fazer follow. E só se se tiver sem bateria é que se repara na rapariga gira da nossa própria mesa. De resto basta seguir as stories para se estar actualizado. E alguma coragem para finalmente fazer o like número 3214 da rapariga gira que colocou uma frase motivacional na descrição em nada relaccionada com o novo biquíni que comprou.

 

Tenho saudades do tempo em que a primeira coisa que se perguntava quando se chegava a uma esplanada era pela sua carta. Hoje em dia, pergunta-se pela password da internet do café. 

 

Não é por isso estranho que em vez de "Temos Caracóis" cada mais vezes passemos a ver "Temos wifi".

E se os primeiros são conhecidos por se fecharem na sua casa que trazem às costas ao menor susto, os segundos passam a vida na casca virtual do seu telemóvel.

 

Não sejam caracóis.

 

(imagem)

 

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Este foi o 39º texto da rubrica Palavras Cruzadas, criada em parceria com a Rita da Nova. A ideia é irmo-nos desafiando uns aos outros através da escrita e escrevermos sobre temas que saem um pouco da nossa zona de conforto ou registo. Mas não só entre nós! Vocês também podem sugerir temas e escreverem também se gostarem das sugestões!

Este tema foi sugestão minha, vejam o que ela escreveu no blog dela!



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