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A minha namorada apanhou o bouquet

Um local de paz e reflexão, mesmo tendo ela apanhado o bouquet.

A minha namorada apanhou o bouquet

10.Jan.18

Palavras Cruzadas // O estranho caso da Mãe e Filho que nunca se falam

Devem ser quase 9:30 - penso eu, de mão no queixo e olhando para cima com ar pensativo.

 

E digo devem, não por saber ler a sombra do sol, mas porque acabei agora mesmo de me cruzar com duas pessoas a caminho do meu trabalho.

Não é novidade. É frequente encontrá-los nesta deslocação a pé. Faça chuva, faça sol, neve não sei, mas só porque nunca nevou. Mas arriscaria que sim também. São o meu despertador. O meu indicador se devo acelerar o passo ou não.

Eles fazem o percurso inverso ao meu.

Uns dias atraso-me e encontro-os mais perto de casa, outros vou mais cedo e apanho-os mais perto do meu trabalho. Ainda há os dias em que madrugo e aproveito para revisitar outras pessoas como uma tal de Inês que já falei por aqui. Mas normalmente acabo sempre por partilhar aqueles 30 a 40 segundos de visibilidade todos os dias com esta mãe e filho.

Mas seriam apenas mais duas pessoas com que me cruzo diariamente se não padecessem de um comportamento particular.

 

A mãe, provavelmente no auge dos seus 70 anos, apresenta-se sempre de cara fechada, suavemente maquilhada e penteado alimentado a laca. Altiva e de movimento solto, circula sempre em passo constante.

O seu filho nos seus 40 e alguns anos, apresenta um vestuário escolhido pela mãe e faz-se sempre acompanhar por um saco de compras bem recheado.

Ao contrário da mãe, circula sempre em passo acelerado.

 

Nunca nestes anos, que nos cruzamos diariamente, os vi trocarem uma palavra. Nunca vinham já a conversar sobre algo, ao longe, antes de me verem. Nunca. Nunca falaram quando passaram por mim, nem depois, que até fiz questão de parar e ficar a observar, virado para trás.

Nunca.

Até já pensei simular uma queda. Ou um ataque cardíaco. Ou simplesmente soltar um arroto útil para gerar indignação?

Receio não ser tão corajoso.

 

Mas existe uma regra.

 

O filho funciona como uma espécie de batedor. Que abre caminho para a mãe passar. Uns dias surge mais perto dela, outros mais longe. Mas faz sempre questão de acelerar primeiro, deixar a mãe para trás, parar e ficar uns segundos a olhar para ela, até que ela se aproxima novamente. E ele aí sim possa voltar a repetir o processo.

Tudo sem nunca, mas nunca se falarem.

 

São parecidos, mas não tenho a certeza se são família.

 

Mas só pode ser amor de mãe tatuado no braço.

 

P.A

 

 

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Este foi o quarto texto da rubrica Palavras Cruzadas, criada em parceria com a Rita da Nova. A ideia é irmo-nos desafiando uns aos outros através da escrita e escrevermos sobre temas que saem um pouco da nossa zona de conforto ou registo. Mas não só entre nós! Vocês também podem sugerir temas e escreverem também se gostarem das sugestões!

Esta semana a Rita escolheu o tema. Podem ver como respondeu no blog dela.

Pronta para saber o que aí vem Rita?
Já que entrámos em 2018 e o tempo passa rápido. Que tal uma viagem ao passado?

Como era a Rita do ano 2000? Já lia? Já falava? Já pensava em dar workshops?



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