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A minha namorada apanhou o bouquet

Um local de paz e reflexão, mesmo tendo ela apanhado o bouquet.

A minha namorada apanhou o bouquet

Um local de paz e reflexão, mesmo tendo ela apanhado o bouquet.

A Exponoivos não é para meninos

Uns dizem que vão deixar de fumar, outros que vão mais ao ginásio. Este ano, fui mais radical. Entrei a matar em 2018.

Fui à Exponoivos. 

De qualquer forma não era nada disto que tinha previsto para 2018. Não me ia propor a algo tão violento, conscientemente. Mas aconteceu.

Fui sim, mas muito contrariado. Não que tivesse perdido uma aposta, ou feito aquele pedido ajoelhado que elas tanto adoram, mas sim porque sou amigo do meu amigo. E ele não quis passar esta provação sozinho. O cobarde.

Eu, coração mole, lá cedi. Muito embora ele me fique a dever uma na mesma. Uma amizade sem trocas é uma treta. 

 

Lá fomos. Chegámos e dirigimo-nos para a fila, para levantar os bilhetes.

Filas e filas de casais, dois a dois sempre no mesmo registo:

Ela, eufórica e faladora,

Ele, calado e concentrado, provavelmente já a imaginar o que se avizinhava, com o olhar perdido, distante.

O oposto de uma bilheteira para um jogo de futebol.

 

Chegou a nossa vez. Recebemos o bilhete acompanhado de dois folhetos de publicidade com aproximadamente uma lista telefónica de peso e entrámos. 

Mais pesados, mas entrámos.

Assim que entrei senti-me novamente em Marrocos. Só que cheirava ligeiramente melhor e os senhores não tinham todos o mesmo bigode. De resto era abordado a cada passo e o discurso era tal e qual o marroquino:

"Já tem?", " Quer ter?", "É o melhor que vai encontrar!",  "Já conhece os nossos produtos?", "Venha aqui ver melhor!", "É mesmo a sua cara!"

Eu sei que este meu ar de jovem casamenteiro, sedutor marido que há-de ser, ou até mesmo de futuro noivo maroto é o sonho de qualquer quinta de casamentos ou catering mais tropical, mas pelo menos podiam não ser tão oferecidas na abordagem! É que eu com essas perco logo o interesse. Nem lhes vejo o cupon. Publicitário.

 

Passada esta primeira zona de assédio casamenteiro, chegámos a outra secção de superação masculina imprópria para menores:

O desfile de vestidos de noiva

 

Tem mesmo de ser? Tem. É como ir a Roma e não ver o Papa.

Em que à partida pensamos que vai ser mais do mesmo e com uma música assim para o fofinho para trazer aquele sentimento ao momento. Só que depois afinal, quando começa, mais parece um videoclip da Ana Malhoa que nos deixa pregados à cadeira, só que em tons de branco e com meninas ainda com menos roupa.

Aprendi algo na exponoivos. É verdade. Não me posso queixar.

Fiquei a saber que para 2018, vão deixar de existir vestidos de noiva. Vai acabar finalmente essa moda antiga e pouco ousada.

Agora chama-se a lingerie de noiva.

Que beleza é uma entrada numa igreja em preparos de bordel, só que em branco fofinho para não chocar. Fiquei convencido. Assim acho bem mais piada. É para casar claro.

 

Infelizmente o desfile termina e é hora de nos aproximarmos da próxima prova:

A entrada em limusines pouco higiénicas derivado ao facto de toda a gente nas últimas 10 horas ter lá andando a roçar os seus glúteos.

 

Só entrei na primeira e guardei o panfleto. O meu médico de família podia vir a precisar.

Está decidido. Vamos de Smart para o copo de água.

 

Por fim a saída. Sentimentos dúbios tomam conta de mim.

Por um lado sinto-me desiludido porque pensava que ainda aguentava mais do que os 10 kilos de publicidade que tinha na mão esquerda, mas afinal tive de rejeitar, já perto do fim, os folhetos das alianças com oferta da impressão da impressão digital que tanto queria. Por outro, gostei de saber que tenho uns ombros e cintura perfeitamente equilibrados para o estilo mais actual de fato de noivo. Não sei bem o que significa, mas fiquei satisfeito.

 

Até porque nem todos ficam bem de boxers com laçarote.

 

(imagem)

 

P.A


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Assédio sexual ou Sedução?

Depois de assistir à cerimónia dos Globos de Ouro em que até o vestuário foi dedicado ao escândalo sexual do momento, comecei a pensar: o que é afinal assédio? A partir de que ponto podemos dizer, eh pá se calhar até estou aqui a ser assediado um bocadinho agora?

 

Em teoria e em bom português, é considerado assédio sexual, todo o conjunto de actos ou ditos com intenções sexuais, geralmente levado a cabo por alguém que se encontra em posição privilegiada.

 

Em teoria faz sentido. Na prática não concordo.

Na prática o assédio é uma aceleração brusca na estrada da sedução. É um saltar etapas. Um estar à vontadinha quando ainda não era suposto estar nem à vontade. É um "com licença" não verbalizado.

No fundo o assédio é o atalho do garanhão preguiçoso. Seja ele homem ou mulher. Daquele que já que tem poder, pretende usá-lo para escalar etapas no processo de sedução. É uma espécie de cartão do monopólio do estar livre da prisão. Podemos testar a sorte pelo caminho convencional do lançamento demorado e tripartido dos dados para podermos sair da prisão, mas já que temos o cartão dourado, vamos usar e despachamos já isto. Depois logo se vê.

Assediar é por isso desprestigiante. É uma mistura de soberba com mandriar. É seduzir com cunha. Sem honra. E é acima de tudo um admitir que algo [poder] levou a melhor sobre nós.

 

E do outro lado? O assediado?

Na realidade o assediado é um mal seduzido. Tão mal seduzido que só se apercebe tarde demais que o estavam a tentar seduzir. Tal é a azelhice e a soberba daquele predador. É claro que assim, de algo inesperado, resulte um choque maior, que no caso das vítimas com personalidade se traduz num imediato "alto e pára o baile que estás a esticar-te" ou num "psst tá quieto", que normalmente finaliza por ali mesmo o ataque.

 

Depois temos outras [vítimas] que acabam por ceder ao poder dito cartão dourado. Alimentando assim o predador.

Como as que só depois do James Franco ter ganho o seu globo é que se recordaram que afinal este também não tinha lido os Maias da sedução e tinha tomado alguns atalhos de soberba pelo caminho.

Infelizmente estas são as que mais desvalorizam, pela vulgarização e interesse, as reais e verdadeiras vítimas de assédio sexual.

 

De qualquer forma se não querem ser acusados de assédio, vão por mim, paguem primeiro um café, levem a jantar fora ou tentem mesmo conversar um pouco, é giro bater aquele courozinho, não acham? Dá pica.

 

Não sejam preguiçosos.

 

 

P.A


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Palavras Cruzadas // O estranho caso da Mãe e Filho que nunca se falam

Devem ser quase 9:30 - penso eu, de mão no queixo e olhando para cima com ar pensativo.

 

E digo devem, não por saber ler a sombra do sol, mas porque acabei agora mesmo de me cruzar com duas pessoas a caminho do meu trabalho.

Não é novidade. É frequente encontrá-los nesta deslocação a pé. Faça chuva, faça sol, neve não sei, mas só porque nunca nevou. Mas arriscaria que sim também. São o meu despertador. O meu indicador se devo acelerar o passo ou não.

Eles fazem o percurso inverso ao meu.

Uns dias atraso-me e encontro-os mais perto de casa, outros vou mais cedo e apanho-os mais perto do meu trabalho. Ainda há os dias em que madrugo e aproveito para revisitar outras pessoas como uma tal de Inês que já falei por aqui. Mas normalmente acabo sempre por partilhar aqueles 30 a 40 segundos de visibilidade todos os dias com esta mãe e filho.

Mas seriam apenas mais duas pessoas com que me cruzo diariamente se não padecessem de um comportamento particular.

 

A mãe, provavelmente no auge dos seus 70 anos, apresenta-se sempre de cara fechada, suavemente maquilhada e penteado alimentado a laca. Altiva e de movimento solto, circula sempre em passo constante.

O seu filho nos seus 40 e alguns anos, apresenta um vestuário escolhido pela mãe e faz-se sempre acompanhar por um saco de compras bem recheado.

Ao contrário da mãe, circula sempre em passo acelerado.

 

Nunca nestes anos, que nos cruzamos diariamente, os vi trocarem uma palavra. Nunca vinham já a conversar sobre algo, ao longe, antes de me verem. Nunca. Nunca falaram quando passaram por mim, nem depois, que até fiz questão de parar e ficar a observar, virado para trás.

Nunca.

Até já pensei simular uma queda. Ou um ataque cardíaco. Ou simplesmente soltar um arroto útil para gerar indignação?

Receio não ser tão corajoso.

 

Mas existe uma regra.

 

O filho funciona como uma espécie de batedor. Que abre caminho para a mãe passar. Uns dias surge mais perto dela, outros mais longe. Mas faz sempre questão de acelerar primeiro, deixar a mãe para trás, parar e ficar uns segundos a olhar para ela, até que ela se aproxima novamente. E ele aí sim possa voltar a repetir o processo.

Tudo sem nunca, mas nunca se falarem.

 

São parecidos, mas não tenho a certeza se são família.

 

Mas só pode ser amor de mãe tatuado no braço.

 

P.A

 

 

___________________

Este foi o quarto texto da rubrica Palavras Cruzadas, criada em parceria com a Rita da Nova. A ideia é irmo-nos desafiando uns aos outros através da escrita e escrevermos sobre temas que saem um pouco da nossa zona de conforto ou registo. Mas não só entre nós! Vocês também podem sugerir temas e escreverem também se gostarem das sugestões!

Esta semana a Rita escolheu o tema. Podem ver como respondeu no blog dela.

Pronta para saber o que aí vem Rita?
Já que entrámos em 2018 e o tempo passa rápido. Que tal uma viagem ao passado?

Como era a Rita do ano 2000? Já lia? Já falava? Já pensava em dar workshops?


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Este Natal vi o Sozinho em Casa e não fez sentido

É verdade.

Não foi planeado. Aconteceu.

Este Natal tive o azar de ficar num lugar da mesa virado para a TV e de repente dou por mim a assistir a um dos filmes mais Natalícios de sempre. Não consegui evitar.

Eu sei que parece uma desculpa esfarrapada de um viciado em filmes que batem, mas prometi a mim mesmo que não faria aqui qualquer tipo de piadas, nem drogas nenhumas sobre o Macaulay Culkin.

 

Na realidade, nem foi o primeiro Sozinho em Casa. Foi a sequela. A SIC assim o ditou.

E foi exactamente por isso que pela primeira vez parei uns instantes e pensei no que se passa realmente neste filme de 1992.

 

E se o Sozinho em Casa fosse em 2018? Já pararam para pensar?

Provavelmente nem haveria sequela! Primeiro porque existe agora uma coisa chamada telemóvel. O rapaz ligava a descompor a mãe e já não ficava sozinho em casa.

Depois, mesmo sem telemóvel, a TVI descobria a situação, fazia uma grande reportagem em horário nobre sobre a problemática do abandono de menores e a mãe da criança era prontamente detida por negligência em 1º grau. Fim! Sozinho em casa 1 resolvido. Acabou a festa.

Nem haveria tempo para assaltos a moradias.

Ainda por mais, estamos a falar de uma mãe que já tinha a seu cargo 8 crianças! Já deveria estar mais do que sinalizada pela Segurança Social.

É o país que temos.

 

Mas voltando ao filme e ignorando o facto de nesta sequela a mãe voltar a "perder" exactamente o mesmo filho em 8, o que induz que se calhar até nem é assim tão involuntário da parte dela perder aquele, vamos tentar analisar o comportamento deste menor que vive sem qualquer tipo de referências parentais.

Primeiro, e isto tem de ser dito: O pai é um banana. É verdade! Tem 2 falas em cada filme.

A mãe por sua vez fala muito. Mas tem um problema, perde mais vezes uma criança de 10 anos do que as chaves de casa. Pode ser chato.

 

É portanto natural que esta criança sofra de graves problemas mentais. E sofre. Claro.

É que ao contrário das crianças da sua idade, este pequeno rebento quando olha para berlindes, não pensa em brincar com eles. Não. Pensa sim como podem ser bastante úteis se colocados à saída de uma banheira, ou perto de umas escadas para outras pessoas caírem.

Além disso acha normal e divertido mandar tijolos à cara de adultos.

E porque não electrificar uma porta? Eu próprio estava sempre a pensar nisso enquanto via o Rei Leão.

Tudo normal portanto. Uma criança de 10 anos vulgar, em pleno Natal.

 

Mas sabem o que mais assusta neste filme? Principalmente nesta sequela?

É que este pequeno psicopata loirinho tem dezenas de oportunidades para chamar as autoridades e informar que foi abandonado pela mãe. Mas não. Nem pondera essa hipótese.

Em vez disso, por sua iniciativa, resolve criar todas as artimanhas possíveis para viver à custa do cartão de crédito do pai, no hotel mais caro da cidade e criar novas e preocupantes armadilhas para voltar a torturar os mesmos delinquentes do primeiro filme.

A psicologia explicará melhor o problema desta família disfuncional, mas sabemos que algo está mal com um filho nosso quando este, com 10 anos, pensa em regar uma corda com um produto inflamável para depois, quando dois bandidos descem por ela, riscar um fósforo e dizer: Feliz Natal!

 

Um filme natalício. Dizem.

 

Mas o que mais adoro é a forma como termina. Sempre pleno de moral. 

 

E assim ao fim de 2 horas de violência pura de um menor sobre dois adultos, a família volta finalmente a unir-se numa imagem bonita de família feliz e de forte mensagem natalícia, em que a mãe delinquente abraça o seu filho psicopata, na presença do seu pai banana, sempre, mas sempre, calado.

 

Que comoção. Que bom o Natal. O Natal é isto!

 

Perfeito, perfeito, era só mesmo aparecer o Donald Trump!

 

 (imagem)

A sério?

 

Bom, uma coisa é certa, para o ano há mais...

 

Isto, se a segurança social deixar.

 

P.A.


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O segundo dia do ano

O segundo dia do ano costuma seguir um conjunto de regras muito específicas.

Existe uma espécie de menu de degustação de experiências típicas da ocasião, em que o cardápio nem muda muito de ano para ano.

Acaba por se tornar numa espécie de roupa velha. Com os restos do nosso ano anterior.

 

Ora vejamos, ao contrário do primeiro dia [do ano] que é feriado para muitos, o segundo não o é para todos.

Então é com relativo ódio que somos apresentados ao início oficial das responsabilidades de 2018 - mais conhecido por segundo dia do ano.

Vamos ser francos.

É um dia chato. Um dia de crescimento pessoal forçado. Um dia adulto. De regresso.

Um dia de reset forçado à nossa máquina para voltarmos a funcionar neste novo ano que nos espera.

Um dia que simboliza que o Natal já foi no ano passado e que a passagem de ano já foi há duas noites. E pior, que o próximo evento no calendário é aquele que nós, rapazes, nos esquecemos com facilidade. Falo claro, do dia mundial da decoração de lojas com corações vermelhos e cupidos angelicais de olhar maroto-safadote.

 

Além disso, hoje é aquele dia que achamos estranho escrever 2018.

Que nos faz parar um pouco e pensar: Caramba já estamos mesmo em 2018.  

E que se forem como eu, vão pensar que se por ventura tivessem procriado durante a estreia do filme Matrix, hoje teriam já um lindo filho de 18 anos. Pronto a votar nas próximas eleições.

 

Mas nem tudo é mau.

Hoje é também o dia mais corajoso de todo o ano!

 

O dia da inauguração dos nossos compromissos para o novo ano! Do cortar da fita da nossa exposição de resoluções para 2018! 

É a partir de hoje que vamos fazer tudo diferente! É hoje o dia de mudança!

Viva nós!

Hoje somos capazes de tudo!

Vou ao ginásio! Vou comer menos porcarias! Vou ter mais tempo para a família!

Vou pedir um aumento! Vou pedi-la em casamen...!

Desculpem.

Deixei-me levar aqui pelo entusiasmo.

 

Só que não. 

Toda esta euforia, toda esta convicção, logo, e quando digo logo é mais logo à hora de jantar, dará lugar a algo que já conhecemos bem, muito bem, de 2017:

 

-"Afinal não me deu jeito...vou ao ginásio amanhã"

 

-"Estava com pressa ao almoço, comi fastfood.[e adoro esta frase->] Ainda não tinha comido pizza este ano!"

 

-"Com isto tudo da mudança do ano, o trabalho acumulou e ainda cheguei mais tarde a casa."

 

-"Amanhã falo com o meu chefe. De amanhã não passa. Peço o aumento amanhã!"

 

-"Afinal este ano é par [ou qualquer outra desculpa esfarrapada]. Peço-a em casamento para o ano!"

 

 

E chegamos assim ao fim deste segundo dia do ano.

 

A deitarmo-nos na mesma cama de 2017.

 

Bom ano!!

 

P.A.


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